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PODEMOS ATÉ PERDER O CHÃO, JAMAIS AS ASAS

  • Foto do escritor: David Queiroz
    David Queiroz
  • há 1 dia
  • 9 min de leitura

Rosa Maia, conhecida no meio literário como Rosamares da Maia, é autora de vários livros publicados. Apaixonada por teatro e literatura, ela escreve desde os 12 anos e transita por prosa, poesia, contos, histórias infantis e ficção. Rosa costuma dizer que seus personagens são “filhos da alma, nascidos da mão e da caneta para despertar a emoção de viver”.


Nesta entrevista, destacamos o seu novo livro de poesias, Aves Migratórias. Uma verdadeira explosão de vida que só mesmo um olhar atento e sensível, como o de Rosamares, é capaz de alcançar: aves que cruzam fronteiras em busca de sobrevivência que falam de migrações muito humanas: pessoas que deixam sua terra, seu corpo, suas certezas e até a si mesmas em busca de abrigo, amor, justiça e pertencimento.


Vamos viajar juntos com esta grande AVE DE PENAS-TINTEIRO, que sobrevoa sonhos, dores e alimenta a esperança de que a rota traçada aponte sempre o ninho do aconchego e da multiplicação.


1. Apresentação e trajetória


  • Rosamares, quem era a menina de 12 anos que começou a escrever, e quem é a mulher que hoje publica “Aves Migratórias”? O que mudou e o que permanece igual em você?

 

– A menina era alguém que, desde muito cedo, se encantou com as letras, com as coisas que elas contavam; mais que isto, acreditou que também tinha histórias para contar. A mulher que hoje publica Aves Migratórias é aquela que soube guardar dentro de si a menina: cresceu, viveu, aprendeu, amou, sofreu e chorou, mas construiu a própria história, sem permitir que a crença e os sonhos da menina abandonassem o seu caminho. A realidade e as pedras do caminho sempre nos transformam, nos amadurecem, criam novas perspectivas — é trajetória natural da vida. Digamos que eu deixei a menina ver e vencer os obstáculos, mas permanecer em mim, alimentando‑se do amadurecimento, sem endurecer nem perder o ponto da criança.


  • Sua formação em Serviço Social e Direito, além da pós-graduação em Gestão do Conhecimento Humano, certamente aproximam você de realidades sociais complexas. De que maneira essa trajetória profissional alimenta a sua escrita literária e, em especial, os poemas de “Aves Migratórias”?


– A formação profissional, quando não nos pega pelo deslumbramento equivocado, em sua fundamentação consegue firmar o nosso olhar para além de um “Dr.”. No meu caso, aprendi a olhar para o serviço diante de um social muito capenga — guardadas as proporções de um país continental, que é um mix de gentes, culturas, condições e oportunidades diversas e divergentes — que se torna extremamente caótico para se exercer o direito de estar e permanecer, de conservar as próprias raízes, ou de criar raízes humanas respeitadas em um mundo onde certidões de posse podem violar os nossos corpos, mas, principalmente, a nossa integridade como pessoas. Sim: o viés profissional possibilitou um caminho de interpretações que certamente norteou a escrita poética, os contos, as crônicas e tudo mais que escrevo.


  • Você costuma dizer que seus personagens são “filhos da sua alma, nascidos da mão e da caneta para despertar a emoção de viver”. Como é, para você, esse momento em que um “filho” nasce? Vem primeiro a emoção, a imagem, uma frase, uma indignação?


– A mão e a caneta são as minhas armas; são o ventre da minha alma, o tempo e o espaço do meu templo interior. Cada filho que nasce da fecundação entre o que eu vejo — a imagem; o que ela me causa — a emoção; o que eu consigo verbalizar, não necessariamente com a voz — uma frase; e a expressão do que ela me causa — a indignação, às vezes, o deslumbramento outras vezes — sempre reafirma uma reverência pelo Provedor de tudo o que se revela em letras.


2. Sobre o livro “Aves Migratórias”


  • Por que o título “Aves Migratórias”? Em que momento você percebeu que essa metáfora das aves e das migrações traduzia o coração do livro?


– Aves Migratórias é o título de um dos meus poemas, que se encontra na abertura do livro. Foi escrito em uma fase em que eu fazia “migrações internas”, através de novas escolhas; portanto, desalojada das zonas de conforto para onde geralmente fugimos quando não desejamos decidir, sem estar abrigada por qualquer “bando” protetor e sem receber oferta de “abrigo” — ou seja, desterrada e desestabilizada. Observe‑se que o bando sempre reforça os nossos laços, mesmo que, à primeira vista, não tenhamos conseguido definir nossas crenças e objetivos. Os muitos deslocados neste mundo imenso, sem certidão de posse ou propriedade, são reféns da apropriação indevida de alguém que se achou “dono”; são migrantes e expropriados, não somente de suas terras, sua casa, nacionalidade, mas das suas vidas, da sua condição e do direito humano de construir uma vida saudável, de prosperar em paz. Esta é uma questão seríssima dos povos nos dias atuais, o que me sensibiliza e leva aquele momento em que o filho nasce a reverberar a indignação.


  • No texto de apresentação, você relaciona a migração das aves com a migração das pessoas e também com a migração interior do poeta, que “emigra de si”. Que tipo de migrações você viveu — geográficas, emocionais ou simbólicas — que encontraram eco nesses poemas?


– Sobrevivência é um instinto que já nasce acoplado a qualquer ser que desperte para a vida; o exemplo clássico disso — sem discutir se é bom ou ruim — são os casos dos vírus, que passam por mutações, evoluem para viver. Os pássaros emigram para o sul ou para o norte, para escapar das intempéries e da escassez que violam a sua capacidade de existir. Pessoas fogem da fome, da violência, dos desastres climáticos. Um poeta migra de si: nos seus sonhos, migrada sua tristeza, do seu desespero; o seu lúdico, o seu lírico realizam o amor que o completa. Todos precisamos de abrigo, de aportar em algum território que nos acolha e complete, que nos diga: “Pode vir, eu te abraço.” Tenho vivido algumas migrações — minhas e de outras pessoas — e falei e falo sobre elas de forma respeitosa, pois a minha alma é tagarela e não controla a minha mão.


  • Você fala de migração como resposta à escassez e à violência, mas também como busca de abrigo, amor e pertencimento. O que “abrigo” significa para você hoje, enquanto mulher, autora e cidadã?


– Abrigo é aconchego nos braços de alguém: pode ser um amor, um amigo, um irmão, um filho(a), pai/mãe, ou o ter um chão, território firme, um teto seguro. Dormir um sono sem sobressalto, sem medo; mãos unidas para enfrentar as incertezas que são o fermento para esse “bolo doido” que é o mundo. Abrigo é saber que existe o meu filho Raphael; a família Maia, que na hora do “pega pra capá” está presente; é ter André, Emília e Gabriel; é saber que existe um David que, mesmo enfrentando os seus Golias, não cogita nem por um segundo largar da minha mão. Abrigo é família, mesmo sem combinar o DNA.


  1. Temas: refugiados, política, feminismo, identidade


  • Os poemas nascem, em boa parte, de um “grito de socorro” diante de questões que, como você escreve, “deveriam envergonhar o Homem”. Que acontecimentos ou situações ligadas a refugiados e migrações mais te atravessaram e acabaram se transformando em poesia?


– O que me impacta são as centenas de mortes nos porões de navios, as centenas de pessoas subnutridas, as mortes por afogamento de velhos, homens, mulheres e crianças à deriva em fragmentos de embarcações naufragadas, enquanto esperam que alguém lhes estenda a mão em socorro. O que me impacta é a escravidão, a venda de seres humanos em pleno século XXI, a exploração sexual de mulheres e de crianças da mais tenra idade, barganhadas como mercadoria. Tudo isso, num mix de indignação e vergonha por pertencer à raça humana, faz eclodir Aves Migratórias.


  • Seu olhar social e político aparece de forma muito forte na obra. Como você equilibra o desejo de protesto e denúncia com a delicadeza da poesia, sem perder a potência de nenhum dos dois?


– Acho que aqui até cabe uma contradição, pois o meu olhar social e político, o meu desejo de protestar, de esbravejar, a minha indignação se rebelam contra uma fragilidade, uma delicadeza que, soprada no ar, conspira dizendo: “Os ventos do Norte não movem moinhos…” Isso dói demais, e não calar é tudo o que eu posso.


  • Identidade, feminismo, família, violência e autoconhecimento são temas centrais do livro. Há algum poema em “Aves Migratórias” que, para você, represente um ponto de virada em relação a esses temas — um poema que tenha sido particularmente difícil ou libertador de escrever?


– Diversos poemas em Aves Migratórias apresentam pontos sensíveis, seja porque traduzem uma dor propriamente dita, uma ausência profunda ou um período crítico de transformação. Não se esqueçam também de que o poeta muitas vezes encaminha o seu poema para manifestações sobre situações diversas do aparente. Por exemplo: o que às vezes parece uma grande “dor de cotovelo” por um amor não correspondido pode, na realidade, falar de uma ausência familiar — alguém que partiu, deixando o autor ao desabrigo de uma grande amizade. “O poeta é um fingidor / Ele finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente.” (Fernando Pessoa) Tenho dois poemas em Aves Migratórias que têm uma profundidade doída — essa é a tônica; eles estão nas páginas 46/47 — “Está tudo bem” — e na página 58 — “Soneto da minha mágoa”. Talvez sejam pedras atiradas nas águas de um único momento. Cabe ao leitor traduzi‑los para as suas próprias dores.


  • Ao observar o cenário atual, especialmente em relação às mulheres, às famílias e às pessoas em situação de refúgio, o que mais te inquieta hoje e como essa inquietação aparece nos seus versos?


– O que mais me incomoda e entristece é que as soluções são paliativas, ou então chegam tarde demais. Penso nos pássaros que voam à altura do chão, desprovidos de asas, à margem dos sonhos, cumprindo penas angustiantes. Por isto, todos os meus momentos neste livro gritam — como eu gostaria que esses gritos tivessem ecos.


4. Processo criativo e relação com a escrita


  • Você escreve prosa, poesia, contos, histórias infantis e ficção. O que a poesia te permite dizer sobre migração, dor, acolhimento e luta que talvez outro gênero não permitiria?


– Acho que dizer em poesia é até mais difícil do que em outro formato ou gênero literário; porém, a poesia me permite contar a história, o drama ou a esperança de forma mais sintética, apesar de existirem poesias gigantescas, como Vozes d’África, Os Lusíadas, Tabacaria etc. Mas eu não me atreveria; conto, então, de forma mais sintética e, mesmo que a minha poesia grite de indignação, ela atingirá a percepção das pessoas de formas diferentes.


  • Como costuma ser o seu processo de criação: você escreve diariamente, em cadernos, no computador, a partir de pesquisas, ou deixa que os poemas “te encontrem” quando querem nascer?


– Eu sou um tanto quanto caótica, nada metódica; sou atropelada pela poesia e pelos contos a qualquer momento. As ideias surgem aos borbotões e, às vezes, não consigo colocar tudo no papel — aí esqueço e fico louca. Porém, há algo neste processo do qual faço absoluta questão: ser verdadeira — não gosto de inventar mentiras nem nos contos infantis. Eu crio personagens, bichinhos que falam, que têm uma vida correlata à humana, mas cada uma das situações é pesquisada para parecer um exemplo possível, crível e que sempre encontra uma moral a ser aprendida pelos seres humanos.


  • Muitas pessoas, ao lerem poemas sobre temas tão duros, podem se sentir reconhecidas, acolhidas ou até mesmo desafiadas. Que tipo de encontro você espera que “Aves Migratórias” produza entre o leitor e a sua própria história de vida?


– Eu espero que as pessoas continuem tendo fé e esperança, mas não gostaria que perdessem a capacidade de se indignar, de se rebelar contra o que é errado. Espero que se coloquem no lugar das outras e façam o que estiver ao seu alcance para ajudar, porque chorar alivia o peso do coração, mas não muda a história. E, novamente — “se os ventos do Norte não movem moinhos”, precisamos buscar as correntes de ventos do Sul.


5. Relação com o leitor e mensagem final


  • Se você pudesse conversar diretamente com uma leitora ou um leitor que hoje se sente “em migração” — mudando de país, de trabalho, de relacionamento ou até de identidade — que versos ou imagem de “Aves Migratórias” você gostaria que essa pessoa levasse consigo?


– Gostaria muito que as pessoas lessem o poema das páginas 68/69 — Poesia… Resistência: Não me omitirei, não serei ausente / Se amordaçada for, as mãos amarradas, / Transpirarei música, verso e poema. / Marcharei com eles até a última fronteira. / Tombarei nos balões de expressão, / Duelo entre a mão, a tinta, o papel.


  • Quando alguém fechar o livro na última página, qual é o sentimento ou a pergunta que você mais deseja que permaneça ecoando dentro dessa pessoa?


– Qual é o meu papel neste mundo? Como contribuir para que os homens — pássaros — façam uma humana revoada e descubram a rota para um pouso tranquilo, onde caibam todos?



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há 11 horas
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Foi transformador para mim editar AVES MIGRATÓRIAS. Realmente me fez voar.

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