PODEMOS ATÉ PERDER O CHÃO, JAMAIS AS ASAS
- David Queiroz

- há 1 dia
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Rosa Maia, conhecida no meio literário como Rosamares da Maia, é autora de vários livros publicados. Apaixonada por teatro e literatura, ela escreve desde os 12 anos e transita por prosa, poesia, contos, histórias infantis e ficção. Rosa costuma dizer que seus personagens são “filhos da alma, nascidos da mão e da caneta para despertar a emoção de viver”.
Nesta entrevista, destacamos o seu novo livro de poesias, Aves Migratórias. Uma verdadeira explosão de vida que só mesmo um olhar atento e sensível, como o de Rosamares, é capaz de alcançar: aves que cruzam fronteiras em busca de sobrevivência que falam de migrações muito humanas: pessoas que deixam sua terra, seu corpo, suas certezas e até a si mesmas em busca de abrigo, amor, justiça e pertencimento.
Vamos viajar juntos com esta grande AVE DE PENAS-TINTEIRO, que sobrevoa sonhos, dores e alimenta a esperança de que a rota traçada aponte sempre o ninho do aconchego e da multiplicação.
1. Apresentação e trajetória
Rosamares, quem era a menina de 12 anos que começou a escrever, e quem é a mulher que hoje publica “Aves Migratórias”? O que mudou e o que permanece igual em você?
– A menina era alguém que, desde muito cedo, se encantou com as letras, com as coisas que elas contavam; mais que isto, acreditou que também tinha histórias para contar. A mulher que hoje publica Aves Migratórias é aquela que soube guardar dentro de si a menina: cresceu, viveu, aprendeu, amou, sofreu e chorou, mas construiu a própria história, sem permitir que a crença e os sonhos da menina abandonassem o seu caminho. A realidade e as pedras do caminho sempre nos transformam, nos amadurecem, criam novas perspectivas — é trajetória natural da vida. Digamos que eu deixei a menina ver e vencer os obstáculos, mas permanecer em mim, alimentando‑se do amadurecimento, sem endurecer nem perder o ponto da criança.
Sua formação em Serviço Social e Direito, além da pós-graduação em Gestão do Conhecimento Humano, certamente aproximam você de realidades sociais complexas. De que maneira essa trajetória profissional alimenta a sua escrita literária e, em especial, os poemas de “Aves Migratórias”?
– A formação profissional, quando não nos pega pelo deslumbramento equivocado, em sua fundamentação consegue firmar o nosso olhar para além de um “Dr.”. No meu caso, aprendi a olhar para o serviço diante de um social muito capenga — guardadas as proporções de um país continental, que é um mix de gentes, culturas, condições e oportunidades diversas e divergentes — que se torna extremamente caótico para se exercer o direito de estar e permanecer, de conservar as próprias raízes, ou de criar raízes humanas respeitadas em um mundo onde certidões de posse podem violar os nossos corpos, mas, principalmente, a nossa integridade como pessoas. Sim: o viés profissional possibilitou um caminho de interpretações que certamente norteou a escrita poética, os contos, as crônicas e tudo mais que escrevo.
Você costuma dizer que seus personagens são “filhos da sua alma, nascidos da mão e da caneta para despertar a emoção de viver”. Como é, para você, esse momento em que um “filho” nasce? Vem primeiro a emoção, a imagem, uma frase, uma indignação?
– A mão e a caneta são as minhas armas; são o ventre da minha alma, o tempo e o espaço do meu templo interior. Cada filho que nasce da fecundação entre o que eu vejo — a imagem; o que ela me causa — a emoção; o que eu consigo verbalizar, não necessariamente com a voz — uma frase; e a expressão do que ela me causa — a indignação, às vezes, o deslumbramento outras vezes — sempre reafirma uma reverência pelo Provedor de tudo o que se revela em letras.
2. Sobre o livro “Aves Migratórias”
Por que o título “Aves Migratórias”? Em que momento você percebeu que essa metáfora das aves e das migrações traduzia o coração do livro?
– Aves Migratórias é o título de um dos meus poemas, que se encontra na abertura do livro. Foi escrito em uma fase em que eu fazia “migrações internas”, através de novas escolhas; portanto, desalojada das zonas de conforto para onde geralmente fugimos quando não desejamos decidir, sem estar abrigada por qualquer “bando” protetor e sem receber oferta de “abrigo” — ou seja, desterrada e desestabilizada. Observe‑se que o bando sempre reforça os nossos laços, mesmo que, à primeira vista, não tenhamos conseguido definir nossas crenças e objetivos. Os muitos deslocados neste mundo imenso, sem certidão de posse ou propriedade, são reféns da apropriação indevida de alguém que se achou “dono”; são migrantes e expropriados, não somente de suas terras, sua casa, nacionalidade, mas das suas vidas, da sua condição e do direito humano de construir uma vida saudável, de prosperar em paz. Esta é uma questão seríssima dos povos nos dias atuais, o que me sensibiliza e leva aquele momento em que o filho nasce a reverberar a indignação.
No texto de apresentação, você relaciona a migração das aves com a migração das pessoas e também com a migração interior do poeta, que “emigra de si”. Que tipo de migrações você viveu — geográficas, emocionais ou simbólicas — que encontraram eco nesses poemas?
– Sobrevivência é um instinto que já nasce acoplado a qualquer ser que desperte para a vida; o exemplo clássico disso — sem discutir se é bom ou ruim — são os casos dos vírus, que passam por mutações, evoluem para viver. Os pássaros emigram para o sul ou para o norte, para escapar das intempéries e da escassez que violam a sua capacidade de existir. Pessoas fogem da fome, da violência, dos desastres climáticos. Um poeta migra de si: nos seus sonhos, migrada sua tristeza, do seu desespero; o seu lúdico, o seu lírico realizam o amor que o completa. Todos precisamos de abrigo, de aportar em algum território que nos acolha e complete, que nos diga: “Pode vir, eu te abraço.” Tenho vivido algumas migrações — minhas e de outras pessoas — e falei e falo sobre elas de forma respeitosa, pois a minha alma é tagarela e não controla a minha mão.
Você fala de migração como resposta à escassez e à violência, mas também como busca de abrigo, amor e pertencimento. O que “abrigo” significa para você hoje, enquanto mulher, autora e cidadã?
– Abrigo é aconchego nos braços de alguém: pode ser um amor, um amigo, um irmão, um filho(a), pai/mãe, ou o ter um chão, território firme, um teto seguro. Dormir um sono sem sobressalto, sem medo; mãos unidas para enfrentar as incertezas que são o fermento para esse “bolo doido” que é o mundo. Abrigo é saber que existe o meu filho Raphael; a família Maia, que na hora do “pega pra capá” está presente; é ter André, Emília e Gabriel; é saber que existe um David que, mesmo enfrentando os seus Golias, não cogita nem por um segundo largar da minha mão. Abrigo é família, mesmo sem combinar o DNA.
Temas: refugiados, política, feminismo, identidade
Os poemas nascem, em boa parte, de um “grito de socorro” diante de questões que, como você escreve, “deveriam envergonhar o Homem”. Que acontecimentos ou situações ligadas a refugiados e migrações mais te atravessaram e acabaram se transformando em poesia?
– O que me impacta são as centenas de mortes nos porões de navios, as centenas de pessoas subnutridas, as mortes por afogamento de velhos, homens, mulheres e crianças à deriva em fragmentos de embarcações naufragadas, enquanto esperam que alguém lhes estenda a mão em socorro. O que me impacta é a escravidão, a venda de seres humanos em pleno século XXI, a exploração sexual de mulheres e de crianças da mais tenra idade, barganhadas como mercadoria. Tudo isso, num mix de indignação e vergonha por pertencer à raça humana, faz eclodir Aves Migratórias.
Seu olhar social e político aparece de forma muito forte na obra. Como você equilibra o desejo de protesto e denúncia com a delicadeza da poesia, sem perder a potência de nenhum dos dois?
– Acho que aqui até cabe uma contradição, pois o meu olhar social e político, o meu desejo de protestar, de esbravejar, a minha indignação se rebelam contra uma fragilidade, uma delicadeza que, soprada no ar, conspira dizendo: “Os ventos do Norte não movem moinhos…” Isso dói demais, e não calar é tudo o que eu posso.
Identidade, feminismo, família, violência e autoconhecimento são temas centrais do livro. Há algum poema em “Aves Migratórias” que, para você, represente um ponto de virada em relação a esses temas — um poema que tenha sido particularmente difícil ou libertador de escrever?
– Diversos poemas em Aves Migratórias apresentam pontos sensíveis, seja porque traduzem uma dor propriamente dita, uma ausência profunda ou um período crítico de transformação. Não se esqueçam também de que o poeta muitas vezes encaminha o seu poema para manifestações sobre situações diversas do aparente. Por exemplo: o que às vezes parece uma grande “dor de cotovelo” por um amor não correspondido pode, na realidade, falar de uma ausência familiar — alguém que partiu, deixando o autor ao desabrigo de uma grande amizade. “O poeta é um fingidor / Ele finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente.” (Fernando Pessoa) Tenho dois poemas em Aves Migratórias que têm uma profundidade doída — essa é a tônica; eles estão nas páginas 46/47 — “Está tudo bem” — e na página 58 — “Soneto da minha mágoa”. Talvez sejam pedras atiradas nas águas de um único momento. Cabe ao leitor traduzi‑los para as suas próprias dores.
Ao observar o cenário atual, especialmente em relação às mulheres, às famílias e às pessoas em situação de refúgio, o que mais te inquieta hoje e como essa inquietação aparece nos seus versos?
– O que mais me incomoda e entristece é que as soluções são paliativas, ou então chegam tarde demais. Penso nos pássaros que voam à altura do chão, desprovidos de asas, à margem dos sonhos, cumprindo penas angustiantes. Por isto, todos os meus momentos neste livro gritam — como eu gostaria que esses gritos tivessem ecos.
4. Processo criativo e relação com a escrita
Você escreve prosa, poesia, contos, histórias infantis e ficção. O que a poesia te permite dizer sobre migração, dor, acolhimento e luta que talvez outro gênero não permitiria?
– Acho que dizer em poesia é até mais difícil do que em outro formato ou gênero literário; porém, a poesia me permite contar a história, o drama ou a esperança de forma mais sintética, apesar de existirem poesias gigantescas, como Vozes d’África, Os Lusíadas, Tabacaria etc. Mas eu não me atreveria; conto, então, de forma mais sintética e, mesmo que a minha poesia grite de indignação, ela atingirá a percepção das pessoas de formas diferentes.
Como costuma ser o seu processo de criação: você escreve diariamente, em cadernos, no computador, a partir de pesquisas, ou deixa que os poemas “te encontrem” quando querem nascer?
– Eu sou um tanto quanto caótica, nada metódica; sou atropelada pela poesia e pelos contos a qualquer momento. As ideias surgem aos borbotões e, às vezes, não consigo colocar tudo no papel — aí esqueço e fico louca. Porém, há algo neste processo do qual faço absoluta questão: ser verdadeira — não gosto de inventar mentiras nem nos contos infantis. Eu crio personagens, bichinhos que falam, que têm uma vida correlata à humana, mas cada uma das situações é pesquisada para parecer um exemplo possível, crível e que sempre encontra uma moral a ser aprendida pelos seres humanos.
Muitas pessoas, ao lerem poemas sobre temas tão duros, podem se sentir reconhecidas, acolhidas ou até mesmo desafiadas. Que tipo de encontro você espera que “Aves Migratórias” produza entre o leitor e a sua própria história de vida?
– Eu espero que as pessoas continuem tendo fé e esperança, mas não gostaria que perdessem a capacidade de se indignar, de se rebelar contra o que é errado. Espero que se coloquem no lugar das outras e façam o que estiver ao seu alcance para ajudar, porque chorar alivia o peso do coração, mas não muda a história. E, novamente — “se os ventos do Norte não movem moinhos”, precisamos buscar as correntes de ventos do Sul.
5. Relação com o leitor e mensagem final
Se você pudesse conversar diretamente com uma leitora ou um leitor que hoje se sente “em migração” — mudando de país, de trabalho, de relacionamento ou até de identidade — que versos ou imagem de “Aves Migratórias” você gostaria que essa pessoa levasse consigo?
– Gostaria muito que as pessoas lessem o poema das páginas 68/69 — Poesia… Resistência: Não me omitirei, não serei ausente / Se amordaçada for, as mãos amarradas, / Transpirarei música, verso e poema. / Marcharei com eles até a última fronteira. / Tombarei nos balões de expressão, / Duelo entre a mão, a tinta, o papel.
Quando alguém fechar o livro na última página, qual é o sentimento ou a pergunta que você mais deseja que permaneça ecoando dentro dessa pessoa?
– Qual é o meu papel neste mundo? Como contribuir para que os homens — pássaros — façam uma humana revoada e descubram a rota para um pouso tranquilo, onde caibam todos?
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Foi transformador para mim editar AVES MIGRATÓRIAS. Realmente me fez voar.